Carta do Economista: aumento dos juros e redução do balanço do Fed mantém correção dos Mercados Globais

2 de Mai de 2022

Por Arilton Teixeira*

Nas maiores economias ocidentais, a inflação manteve a tendência de alta, com os aumentos dos preços das commodities devido a guerra. Com isto, aumenta o retorno da renda fixa e cai o valor das empresas com a expectativa de aceleração do ritmo de retirada dos estímulos monetários.

No Brasil, a economia continua crescendo e a inflação também teve nova alta.  Com a elevação dos retornos da renda fixa no exterior e a sinalização do Banco Central do Brasil (BCB) de que o ciclo de alta dos juros está no fim, cai o diferencial de juros - levando o capital estrangeiro a começar a sair do Brasil -, à queda do Ibovespa e a alta do dólar.

Em síntese, os principais índices das bolsas nas maiores economias mantiveram a queda durante abril. No Brasil, a saída do capital estrangeiro levou, além da queda do Ibovespa, a forte valorização do dólar.

Mercado Externo

Os dados do mês de abril trouxeram mudanças. A economia chinesa teve aumento do crescimento no primeiro trimestre e a dos USA teve queda, enquanto a Europa mantém sua recuperação pós-pandemia. Mas, a inflação elevada continua aumentando, ajudada pela guerra.

Na Zona do Euro, o PIB do 1º trimestre teve crescimento anual de 5%, como esperado. Já o PMI (Índice dos Gerentes de Compras) de manufaturas e serviços de abril ficaram próximos a estabilidade.

Na China, as vendas no varejo (3.5%) e a produção industrial (5%) aumentaram em março e o PIB teve aumento do crescimento no 1º. trimestre de 2022. Mas, os novos fechamentos das cidades devido a política de combate à covid tendem a reduzir o desempenho da economia em 2022, como indicam os PMIs de manufaturas (47.4) e serviços (41.9) de abril com fortes quedas, indicando contração da economia (devendo reduzir a demanda de commodities).

Nos USA, em abril, o PMI de manufaturas aumentou enquanto o de serviços caiu. Já o PIB do 1º trimestre teve queda de 1.4%, vindo bem abaixo do esperado. Mas, a geração de empregos está elevada e o desemprego muito baixo. Além disto, o consumo e o investimento privado continuam forte, o que reduz a possibilidade de recessão para este ano.

A maior fonte de incerteza nas maiores economias continua sendo a inflação (CPI), que já era elevada e acelerou em abril nos USA (8.5%), na Zona do Euro (7.5%) e no UK (7.0%), devido aos efeitos da guerra sobre os preços das commodities.

Neste cenário, o Banco Central Europeu (ECB) já anunciou que deve encerrar a compra de ativos e iniciar o aumento dos juros no 3º trimestre (podendo ser antecipado). O Banco da Inglaterra (BoE) voltou a elevar os juros, já o Fed sinaliza acelerar o aumento dos juros e a redução do balanço.

Este movimento dos maiores bancos centrais tem aumentado o retorno da renda fixa, atraindo investimento para este setor e reduzindo o diferencial de juros em relação aos emergentes. Com isto, o movimento de capital em direção às maiores economias tem acentuado, desvalorizando as moedas dos emergentes e o valor de mercado das empresas ao redor do mundo.

Para os próximos meses, o ritmo de retirada dos estímulos monetários continua a ser fundamental (possíveis impactos da guerra Rússia-Ucrânia dependem de mudanças em relação à situação atual).

Mercado Interno

Comecemos com as expectativas do Boletim Focus para 2022 e os dados econômicos. O crescimento esperado aumentou para 0.65% (há um mês era de 0.5%). A inflação esperada teve alta, passando de 6.86% para 7.65%. Já a Selic esperada para dezembro de 2022 passou de 13% para 13.25%.

Os dados liberados em abril voltaram a sinalizar recuperação do crescimento. Os PMIs de manufaturas e serviços aumentaram em março de 49.6 para 52.3 e de 54.7 para 58.1, respectivamente. Além disto, a economia continua criando postos de trabalhos, levando a queda do desemprego para 11.1% no primeiro trimestre de 2022, e a arrecadação continua crescendo. O dado que destoa foi a queda do setor de serviços (-0.2%) em fevereiro.

Mas, a inflação continua gerando incertezas. O IPCA de março volta a subir, atingindo 10.98%, e o IPCA-15 de abril atingiu 12.03%. É esperado pelo mercado que o BCB eleve os juros em 1.0% no início de maio (Selic atingindo 12.75%).

Mas, o BCB declarou que a alta dos juros deve parar em 12.75%. Caso os efeitos da guerra gerem um aumento maior e de maior persistência na inflação, a interrupção em 12.75% pode levar o BCB a ficar atrás da curva, mais uma vez. Além disto, a aceleração da retirada dos estímulos monetários nos USA já está reduzindo o diferencial de juros com o Brasil. Uma interrupção da elevação dos juros no Brasil, com inflação em alta e juros americanos subindo mais e mais ficando mais altos, incentivaria ainda mais a saída de capital estrangeiro do Brasil com seus efeitos sobre o dólar, inflação e o Ibovespa.

As perspectivas da economia brasileira e dos preços dos ativos nos próximos meses continuam a depender: (i) da manutenção da estabilidade interna e do crescimento; (ii) da redução do risco fiscal e inflacionário; (iii) da política monetária nos USA; (iv) da evolução do conflito Ucrânia-Rússia.

O resultado fiscal do governo federal e do setor público consolidado em 2021 e no início de 2022 reduziu o risco fiscal, contribuindo para a forte entrada de investimentos estrangeiros no Brasil, atraídos pelas empresas lucrativas e pelos juros altos. Mas, o aumento mais rápido dos juros nos USA e uma interrupção do aumento de juros aqui podem alterar este cenário.  Finalmente, as eleições de 2022 podem gerar incerteza e aumento da volatilidade, gerando aumento dos gastos e do risco fiscal.

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*Economista-chefe da Apex Partners

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