Carta do Economista: Mais um mês com guerra e a retirada dos estímulos monetários dominando os mercados

1 de Abr de 2022

Por Arilton Teixeira*

Em março, os preços dos ativos continuaram sendo afetados pela guerra (e as negociações de paz) e a retirada dos estímulos monetários pelos bancos centrais das maiores economias, como o Federal Reserve (Fed) dos USA. A redução dos estímulos tende a acelerar, à medida que a elevação dos preços das commodities devido a guerra tende a aumentar a inflação mundial.

No Brasil, a economia está crescendo, dá sinais de aceleração, e a inflação anual continua elevada, ainda sem os efeitos da guerra. Mas, com os juros altos (e em elevação) e com o novo aumento dos preços de commodities, o país continuou a atrair investidor estrangeiro.

Neste cenário, uma vez reduzido os riscos de generalização do conflito, os principais índices das bolsas nas maiores economias conseguiram manter a tendência de valorização. No Brasil, a entrada de capital estrangeiro manteve a valorização da bolsa, do real e queda do risco Brasil.

1.1 - Mercado Externo

Os dados do mês de março não trouxeram grandes novidades em relação ao crescimento e a inflação nas maiores economias. Os USA com crescimento forte, a Europa (Zona do Euro e o UK) mantendo a recuperação e China com crescimento menor (e talvez ainda em queda).

Os problemas das maiores economias continuam sendo os possíveis impactos do conflito Rússia-Ucrânia sobre o crescimento e a inflação (já bastante elevada).

Na Zona do Euro, os PMI (“Índice dos Gerentes de Compras”) de manufaturas e serviços caíram em março, sinalizando possível efeito da guerra na economia.

Na China, embora as vendas no varejo (6.7%) e a produção industrial (7.5%) tenham aumentado em fevereiro, os PMI de manufaturas e serviços de março tiveram quedas.

Nos USA, o PMI de manufaturas e serviços de março tem nova elevação, mostrando que a economia continua crescendo forte. A geração de empregos está elevada e o desemprego muito baixo. Mas, a inflação (CPI) continua acelerando e atingiu 7.9% em fevereiro, ainda sem os efeitos do aumento dos preços das commodities devido a guerra.

Com este cenário de crescimento e inflação elevada, os bancos centrais começaram a atuar. Em sua reunião de março, o Fed aumentou os juros em 0.25% e manteve a sinalização da redução do balanço. O BoE (Banco da Inglaterra) voltou a elevar os juros e o ECB (Banco Central da Zona do Euro) sinalizou que a manutenção dos atuais níveis de inflação deve levar a interrupção na compra de ativos e no aumento dos juros a partir do 3º trimestre de 2022.

O início da redução do balanço dos bancos centrais (em particular do Fed) tende a provocar ainda maior redução nos preços das empresas, nova elevação no retorno dos títulos públicos e na valorização do dólar (notando que os impactos iniciais da guerra sobre o valor de mercado das empresas e o retorno dos “treasuries” já foram revertidos).

Para os próximos meses, a retirada dos estímulos monetários e o desenrolar do conflito vão ser fundamentais para o cenário. A duração do conflito, seu alcance (mais países podem ser envolvidos) e a elevação das sanções econômicas contra a Rússia devem manter elevados os preços da energia e de commodities agrícolas. Além disto, as moedas dos USA e dos países exportadores de commodities continuam forte.

Outro possível efeito é a redução do ritmo de atividade econômica devido ao aumento dos preços da energia e da maior incerteza. Os bancos centrais podem ser pressionados a reduzir o ritmo de retirada dos estímulos monetários, a despeito de um possível aumento da inflação.

1.2 - Mercado Interno

Comecemos com as expectativas do Boletim Focus para 2022 e os dados econômicos. O crescimento esperado aumentou para 0.5% (há um mês era de 0.30%). A inflação esperada teve alta, passando de 5.60% há um mês para 6.86%. Já a Selic esperada para dezembro de 2022 passou de 12.25% para 13%.

Os dados liberados em março voltaram a sinalizar recuperação do crescimento. O PIB do 4º trimestre cresceu 0.5%, fechando 2021 com crescimento de 4.6%. O desemprego fica estável em 11.2% no trimestre novembro/janeiro. Além disto, foram criados 328.5 mil empregos em fevereiro (esperado 210 mil) e as vendas no varejo em janeiro aumentaram 0.8%. Mas, o setor de serviços (0.1%), a produção industrial (2.4%) e o IBC-Br (0.99%) tiveram queda.

Com respeito a inflação, tivemos repique dos índices anualizados. O IPCA-15 volta a subir atingindo 10.79% em março. Como esperado pelo mercado, o Banco Central do Brasil (BCB) eleva os juros em 1.0% em março sinalizando, novo aumento de mesma magnitude.

Mas, o BCB pode ter gerado nova armadilha para a política monetária. Recentemente, o BCB declarou que a alta dos juros deve parar em 12.75%. Caso os efeitos da guerra gerem um aumento maior do que esperado na inflação, a interrupção em 12.75% pode levar o BCB a ficar atrás da curva, mais uma vez.

Com crescimento, menor volatilidade interna (ausência de conflitos institucionais), juros elevados e novos aumentos dos preços das commodities devido a guerra, o Brasil continuou a atrair capital estrangeiro para a bolsa. As ações das empresas brasileiras voltaram a subir em março, uma vez precificado os efeitos do conflito Rússia-Ucrânia no início do mês.

As perspectivas da economia brasileira e dos preços dos ativos nos próximos meses continuam a depender: (i) manutenção da estabilidade política interna e do crescimento; (ii) avanço das reformas, reduzindo o risco fiscal e inflacionário; (iii) da política monetária nos USA; (iv) conflito Ucrânia-Rússia.

O aumento dos gastos públicos aprovados em fins do ano passado aumentou o risco fiscal e tributário. Mas, o resultado fiscal do governo federal e do setor público consolidado em 2021 voltou a acalmar os mercados, levando a forte entrada de investimento no Brasil atraídos pelas empresas lucrativas e pelos juros altos. Finalmente, as eleições de 2022 podem gerar incerteza e aumento da volatilidade se as promessas e acordos dos líderes gerarem aumentos esperados dos gastos.

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*Economista-chefe da Apex Partners

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